sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Rei morto Rei posto?


O Pai está morto?


Percorrem-se, dentro da obra freudiana, as diversas formulações a respeito do pai
– o pai sedutor, o pai no complexo de Édipo e sua relação com a instância
superegóica, o pai e a formação da cultura.

Lacan (1956/1957) coloca, em seu Seminário A relação de objeto, que a pergunta “o que é o pai” é uma questão não resolvida no centro da experiência analítica (Lacan,
p. 383). Trata-se, pois, de um enigma que, segundo Michel Silvestre, permaneceu “im-penetrável” para Freud até o fim de sua vida, assim como o enigma “o que quer uma
mulher”. De fato, a obra de Freud é toda marcada por tentativas de resposta a esse
enigma e por sua importância na constituição própria do psiquismo. O nascimento da psicanálise tem uma relação estreita com um declínio da imagem paterna na Viena de então...

O pai na psicanálise – eis o que iremos abordar nesta fala.

O pai freudiano:
Em ”A psicoterapia da histeria”, Freud (1895) deixa claro o ponto de vista de que a sexualidade estava no centro da explicação etiológica das neuroses. Em suas investigações, se apercebe de que tal sexualidade referia-se especificamente a uma sedução, predominantemente do adulto para a criança. Concluiu que os pais eram perversos e seduziam as crianças, chegando a associar a idade delas no momento da sedução com o futuro desenvolvimento da histeria. Sua teoria da sedução aponta para um pai pervertido. Entretanto, Freud percebe que as cenas infantis relatadas no decorrer da análise nem sempre eram uma realidade, mas sim uma fantasia inconsciente de sedução, o que derruba a causalidade factual na explicação etiológica da neurose. É o que ele escreve a Fliess quando lhe diz que não acredita mais em sua neurótica.

Octave Mannoni (1994) coloca que a teoria da sedução, apesar da distorção que continha, abria alas para o complexo de Édipo quando preconizava a violação da proibição do incesto como fator etiológico das neuroses, apesar de, naquele momento, ainda ser considerada real. “... essa hipótese etiológica não era senão a resistência que o protegia do conhecimento dos desejos edipianos  inconscientes.

Roudinesco (1998) nos lembra que a passagem da teoria da sedução para teoria da fantasia inconsciente colocou Freud, pessoalmente, em xeque: ao lançar dúvidas sobre o pai, também o fez sobre Jakob Freud, seu pai, e sobre ele mesmo com relação às suas filhas. Um ano depois da morte de seu pai, Jakob,Freud formula a teoria do complexo de Édipo. Lembremos que ele escreve a Fliess uma carta relatando um sonho que teve perto do dia do funeral de seu pai: viu, em local público, o aviso – “pede-se que você feche os olhos”. Freud interpreta tal sonho como:

... cada um deve cumprir seu dever para com
os mortos (um pedido de desculpas, como se
eu não o tivesse feito e estivesse precisando de
clemência. (Masson, 1986, p. 203)

A que Freud precisava fechar os olhos? À generalização do Complexo de Édipo?
O pai no complexo de Édipo. Mais uma vez buscando em si próprio as respostas aos enigmas em que esbarrava, Freud chega ao complexo de Édipo. Em sua “análise original” reconhece seus sentimentos de amor com relação à sua mãe e seu conflito de sentimentos em relação ao pai – ciúme e amor (ibid., p. 273). Em “O ego e o id” Freud (1923a) descreve o que seria o Édipo no menino: amor pela mãe, hostilidade pelo pai, ambivalência emocional. Em “Organização genital infantil”, Freud (1923b) apresenta a idéia de que para ambos os sexos há apenas o órgão genital masculino, o que permite dizer que há primazia não dos órgãos genitais, mas do falo. A crença do menino é a de que todos têm pipi e a descoberta, através de uma pesquisa, de que nem todos o têm, necessita explicação. Inicialmente pensa que ele crescerá e, mais tarde, atribui a falta a uma castração.

Neste caso, a mãe é preservada, não-castrada. Assim, há duas possibilidades, aponta
Freud: possuir o órgão genital masculino ou ser castrado. No ano seguinte, em “A dissolução do complexo de Édipo”, Freud (1924) se pergunta sobre o que ocasionaria sua dissolução, fazendo-o sucumbir ao recalque. A resposta é fundada na ameaça de castração. Freud logo aponta que isto não se dá de uma só vez, havendo experiências que “… preparam para perda de partes altamente valorizadas do corpo” (p. 195). Refere-se a perdas parciais – seio, fezes... Mas a experiência que faz essa ameaça mais poderosa é a visão dos órgãos genitais femininos, pois torna concreta a perda do próprio pênis, e “a ameaça de castração ganha seu efeito adiado” (p. 195). Freud conclui que o “interesse narcísico” do menino triunfa frente ao seu investimento libidinal no objeto parental e “… o ego da criança volta as costas ao complexo de Édipo” (p. 196). O investimento de objetos é substituído por identificações, diz Freud. O supereu se forma.

No caso da menina, a dissolução do Édipo se dá por outra via, por uma troca simbólica entre pênis e bebê. Com a não realização de tal desejo, o complexo de Édipo é abandonado (ibid., p. 198). Lacan divide o complexo de Édipo em três tempos e localiza o pai nesse contexto.

1)No primeiro momento, a criança se identifica com o que é objeto de desejo da mãe,
aquilo que se chamou falo.
2)Em um segundo tempo, o pai intervém como privador duplo: priva a criança do objeto de seu desejo e a mãe de seu objeto fálico. Sauret (1998) usa uma imagem para demarcar a função paterna aqui: diz que o pai real pode intervir como privador “fazendo a cama” para o pai simbólico. E então ele acrescenta algo importante: o pai simbólico deita-se nesta cama se a mãe o invocou como mediador. A questão toda está situada, então, em se localizar quem é o pai para a mãe, quem ela reconhece como importante, a quem ela refere como seu objeto de desejo. Assim, o pai vem na palavra da mãe, em seu discurso, ele é simbólico.
3)Em um terceiro tempo, o pai intervém como aquele que tem o falo e não como aquele que o é. Com isto, a criança percebe que há algo que a mãe deseja no pai, o falo, e então não se trata de ser privador. É neste lugar de quem tem, que o pai aparece para a criança como alguém a se espelhar, como o ideal do eu, pela via da identificação. Daí teremos o declínio do complexo de Édipo, que deixará um recalcamento originário como marca e o supereu como herdeiro. Michel Silvestre (1996) nos ajuda a entender qual é o lugar do pai na configuração edípica ao falar que a dissolução do complexo de Édipo implica a morte do pai:

… a entrada no Édipo é desencadeada pelo pai,
desencadeamento que é sucessivamente denominado
de obstáculo, detenção, interdição,
ameaça, dirigidos tanto à mãe quanto à masturbação.
A saída do Édipo, seu “declínio”, tem
uma única significação: a morte do pai, ou,
mais precisamente, a entrada em cena do “pai
morto”. (p. 90)


O Pai Lacaniano

A função simbólica do pai é a do pai morto,já que é como morto que ele pode ser equivalente a puro significante. E é por isto que o pai, o pai simbólico, se relaciona com a lei.

Para que haja alguma coisa que faz com que a
lei seja fundada no pai, é preciso haver o assassinato
do pai. As duas coisas estão estreitamente
ligadas – o pai como aquele que promulga
a lei é o pai morto, isto é, o símbolo do pai.
O pai morto é o Nome-do-Pai, que se constrói
aí sobre o conteúdo. (Lacan, 1957-1958, p. 152)

A teoria edípica aponta para um pai simbólico, possível pela “morte do pai”, por sua falta. Lacan (ibid.), no Seminário 5 – As formações do inconsciente, diz que o pai no complexo de Édipo é uma metáfora:

Que é o pai? (…) A questão toda é saber o que
ele é no complexo de Édipo. Pois bem, o pai
aí não é um objeto real, mesmo que tenha de
intervir como objeto real para dar corpo à
castração. (…) Ele tampouco é unicamente
um objeto ideal… O que lhes trago hoje,
justamente, dá um pouco mais de exatidão à
idéia de pai simbólico. É isto: o pai é uma
metáfora. (p. 180)

Da solução edípica resta o supereu como instância que internalizou a lei do pai, o que nos convida a tentar articular o que isso tem de relação com a função do pai. Uma vez que o supereu é a instância diferenciada do eu, com uma função censora, o representante da lei, como podemos articulá-lo com a função do pai, na psicanálise? Desavisadamente poderíamos supor que um seria o avanço do outro, já que o supereu é o representante da lei do pai internalizada, e o Nome-do-Pai o significante da função paterna.

Lacan (Idem, p. 186) coloca, exatamente, a função do pai, com a preocupação de logo esclarecer: O pai, para nós, é, ele é real. Mas, não nos esqueçamos de que ele só é real na medida em que as instituições lhe conferem, eu nem diria seu papel e sua função de pai – não se trata de uma questão sociológica – mas seu nome de pai.

O pai, portanto, para a psicanálise, só é real porque foi feito nome. E Lacan
(Idem, p. 187) chamará de Nome-do-Pai a essa função por ele exercida, conferindo-lhe
estatuto simbólico, ao dizer: A posição do Nome-do-Pai como tal, a qualidade do pai como procriador, é uma questão que se situa no nível simbólico. Pode materializar-se sob as diversas formas culturais, mas não depende como tal da forma cultural, é uma
necessidade da cadeia significante.

Assim, para a psicanálise, o pai que conta é palavra que estrutura, ele entra na relação de alienação mãe-criança, para fazer do pequeno ser em estruturação, sujeito de desejo. Também em Porge (1998, p. 157) encontra-se uma aproximação entre Édipo e Nome do-Pai, quando ele afirma que, na teoria freudiana, o complexo de Édipo “é um Nome-do-Pai que funciona aí onde justamente há um ponto em que a teoria não tem pai”. E explica: “Ele é um Nome-do-Pai porque é uma nominação do pai nos dois sentidos do termo: nominação de uma função do pai e nominação produzida por Freud a quem se pode imputar ser o pai da psicanálise.” Em A relação de objeto, seminário de 1956 1957, Lacan apresenta um desenho que repete em As formações do inconsciente, o qual lhe permite mostrar que “a posição do significante paterno no símbolo [é] fundadora da posição do falo no plano imaginário” (Idem, p. 189).

A transformação da relação dual mãe-criança, num ternário imaginário cujo vértice é ocupado pelo falo, numa simetria com o ternário simbólico, em cujo vértice está o pai, torna possível entender que o falo está aí, naquela posição, porque ele é um objeto privilegiado na ordem simbólica que aponta na direção de um para-além do desejo da mãe. Se não houver esse para-além, algo mais que a mobilize, não poderia andar a dialética edipiana: como poderia sair do aprisionamento imaginário essa criança que aí está, numa relação de pleno gozo de completude imaginária, se a mãe só tem olhos para ela?

Felizmente, para a criança, o falo – como ensina Lacan – é o objeto de desejo da
mãe, objeto ao qual ela terá acesso pela mediação do pai, mediação, no entanto, que
só ocorrerá na dependência da posição ocupada pelo pai na ordem simbólica (Idem, p.
190). Assim, a posição do significante paterno no símbolo funda a posição do falo no
imaginário. É nisso que consiste a metáfora paterna: na substituição do significante
materno pelo significante paterno. Dito de outro modo, do significante do desejo da mãe
pelo significante Nome-do-Pai.

Lacan (Idem, p. 197) destaca a relação entre o Nome-do-Pai e a lei, ao afirmar: O essencial é que a mãe funde o pai como mediador daquilo que está para além da lei dela e de seu capricho, ou seja, pura e simplesmente, a lei como tal. Trata-se do pai, portanto, como Nome-do-Pai, estreitamente ligado à enunciação da lei.

Há, assim, uma lei da mãe, a qual advém do fato de que esta é falante, podendo pronunciar algo de que necessita a criança para sair da condição de assujeito e aceder à de sujeito de seu próprio desejo. Não antes de concordar pagar o preço de aceitar a privação/castração da mãe. A lei do pai é o que retorna à criança quando a concebe, imaginariamente, como privadora da mãe. Lei que é palavra do pai, mediada pela mãe, condição para que ele apareça para o filho como aquele que detém o falo. Passaporte, portanto, para a saída do complexo de Édipo, que implicará numa identificação ao pai como “Ideal do eu”.

Jean-Pierre Lebrun (2010, p. 15)3, em O mal-estar na subjetivação, aponta o declínio da função patriarcal – que implica o declínio da função do pai no social. Para Lacan, é a instância psíquica cuja função, no plano simbólico, consiste em regular a estrutura imaginária do eu, as identificações e os conflitos que regem suas relações com os semblantes.

O maior sintoma da contemporaneidade. Diz ele: “Com efeito, é o sintoma maior de nosso social atual, no que ele segue em cortejo tanto com a evolução da democracia como com os progressos das tecnociências e com o desenvolvimento do liberalismo econômico.”

A avaliação leva em conta efeitos do avanço da democracia na ordem política e econômica, bem como na evolução dos discursos da ciência e da tecnologia, sem pender, todavia, para uma posição contra o progresso. Lebrun (Idem, p. 16) afirma que uma das conseqüências desse declínio da função patriarcal, na atualidade, é o descrédito observado em relação ao “lugar do pai no social”, o qual se torna visível também em relação a todos aqueles que ocupam um “lugar de autoridade ou chefia”.

De forma dramática, podemos ver isso, hoje, em relação ao professor. Tal como o pai, para ser amado, para ostentar um certo grau de reconhecimento social, ele se faz “brother”, muitas vezes, comprometendo o lugar de exceção que deve ocupar, por onde a legitimidade se impõe, não pela força, mas pela palavra. O desenvolvimento da ciência e da tecnologia, o avanço do capitalismo e da democracia são fatos históricos que abalam a função de referência, válida para todos até o início do terceiro milênio. Assim, o que era necessário, até então, mostra-se, agora, nada mais nada menos, do que mera “contingência histórica”, ou seja, o pai do patriarcado já não é indispensável para transmitir a terceiridade.

O que queremos ressaltar, porém, e que Lebrun (Idem, p. 17) defende, enfaticamente, é que o declínio da função patriarcal – ou da função do pai no social – não equivale ao declínio da função paterna – a função patriarcal correspondendo ao papel que o pai exerce no social, enquanto a função paterna tem a ver com “o lugar que o genitor, podendo ser qualquer outro, ocupa para a mãe e a criança, de forma a permitir a operação da metáfora paterna”.

Entretanto, mesmo que o declínio da função patriarcal, de cujos efeitos padecemos, não corresponda ao declínio da função paterna, ele “priva de sua legitimidade o exercício real da função paterna na família, pois o enodamento real-imaginário-simbólico é indispensável para o seu funcionamento.

Em consequência do declínio da função do pai no social, o pai de hoje já não se sente mais reconhecido nesse lugar de quem estabelece e impõe limites, já que a ordem, agora, é a do gozo sem limite, embora, como avalia, ainda, o autor citado, (Idem, p. 20), para que tal efeito não ocorra “basta que aquele que faz ofício de pai real não abandone sua tarefa, mesmo que este tenha perdido sua legitimidade histórica de antanho”.

Como se sabe, Lacan muito se empenhou para acompanhar os progressos do social e a própria formulação do conceito de função paterna é uma comprovação disso, na medida em que, naquele momento, ele tem claro o propósito de ultrapassar o que está compreendido pelo declínio do patriarcado, ou seja, o que é da função do pai no social. A função paterna é outra coisa.

Ao final do seu ensino, o conceito de Nome-do-Pai pluraliza-se como Nomes-do-
 Pai. Porge (Idem, p. 9) afirma que essa ortografia no plural não aparece em escritos publicados do próprio Lacan, podendo ser encontrada, no entanto, em seminários e conferências. Na aula de 11 de março de 1975, do Seminário RSI, ele diz: “Quando comecei [...] eu falei dos nomes do pai. Pois bem, os nomes do pai é isso: o simbólico, o imaginário e o real [...] é isso os nomes do pai, os nomes primeiros enquanto nomeiam algo.”

Para Porge (Idem, p. 160), “o plural os nomes do pai, aos quais são identificados real, simbólico e imaginário, significa esta conjunção, cujo operador é o Nome-do-Pai”. Mas será que essa conjunção, tendo o Nome-do-Pai como operador, ainda é válida hoje?

Na publicação mais recente de Lebrun (Idem, p. 86-7), ele nos diz que, com a pluralização [dos Nomes-do-Pai], “Lacan faz emergir uma nova modalidade de função paterna: não mais um Pai para todos, mas a cada um o seu”. Um detalhe, porém, não é mera retórica: que se possa dispensar o Nome-do-Pai, mas com a condição de poder servir-se dele. Dito de outro modo, é impossível ao que se fez humano livrar-se da instância fálica. Por isso, é de um para-além do que podem oferecer as pai – versões infinitas de Papai Noel que as crianças de nossa contemporaneidade precisam.

Como pai – versões, nesse momento, queremos entender as versões multiplicadas do pai, a partir da pluralização do Nome-do-pai, que apontaria para um dispositivo que Lebrun, (2008, p. 278), em A perversão comum, está chamando de “nomear-para”, em contraposição ao Nome-do-Pai. E ele toma o testemunho do próprio Lacan para dizer que, “este nomear pode não se acrescentar ao Nome-do-Pai, mas ao contrário, tomar seu lugar”. Desse modo, se a “nomeação” é uma metáfora, o “nomeado-para” seria uma solução metonímica onde metáfora não há. E isso faz toda a diferença, o que Lebrun (Idem, p. 279), ainda seguindo a mesma trilha, tenta explicar relembrando a afirmação de Lacan: “a mãe em geral basta para a operação do nomear para [...] não há necessidade de intervenção do terceiro”.

Mas, logo em seguida, mostra o limite implicado nessa afirmação lacaniana: “é que a mãe não poderá ser o pai real”. Voltando a Papai Noel, é nessa posição – a da mãe que não poderá ser jamais o pai real – que estamos vendo cada representação de carne e osso imposta às crianças de nossa contemporaneidade, como se fossem a representação do pai real. Na medida, em que o social atual já não confere a este pai seu nome-de-pai, isto é, sua função simbólica, o sujeito estaria como “em suspenso”, abandonado à perversão polimorfa infantil, à “mère-version”, ou seja, a um outro regime onde não é preciso metáfora (metáfora paterna), a metonímia sendo bastante, nesse caso, pois, se há terceiro, ele é meramente virtual.

Pressionadas pelo peso do imaginário que lhes antecipa a angústia de não poder desejar – porque o vazio, ele está cheio de sentidos – elas, as crianças contemporâneas, exibem seu mal-estar. As escolhas sintomáticas são as mais diversas: obesidade, anorexia, hiperatividade, dificuldade de aprender, agressividade, depressão, dentre outras. E nós, que podemos fazer? Vamos continuar apontando na direção da alternativa de poder dispensar-se do encontro com a perda? Vamos continuar, diante do mal-estar de nossas crianças e adolescentes, vestindo a roupa de Papai Noel?




Carta ao Laboratório


Carta ao laboratório de psicanálise.
Ao estudar o feminino nesta tarde, os espíritos dos psicanalistas mortos invadem minha mente. E sou obrigado pelo meu desejo em escrever uma carta ao laboratório.
O feminino funda a psicanálise. É escutando as histéricas que Freud produz um “arranjo”, um achado, que junto ao sintoma dele funda está coisa que insistimos em estudar e se ocupar.
Então me questiono, realizo um trabalho de pesquisa com objetivo de estudar o feminino, o Laboratório de psicanálise estuda o feminino na psicanálise, Anna Rogéria adora e goza em falar do feminino. Isso não é o fruto do acaso?Não. É Transferência, não com o mestre, mas com a psicanálise.
O laboratório tem uma identidade, está é uma profunda “relação” com o Freud. Não estamos aqui para convocar o Nomes-do-PAI. Nosso labor é estudar a psicanálise deixada por Freud, e agora metida ou metendo com Lacan avançamos em achados novos, o que para min ainda são velhos.
É Neste labor de analise pessoal, estudo teórico, e supervisão que o sujeito um dia possa ocupar a função de psicanalista.
Deixo uma pergunta a ser pensada, quem funda a psicanálise? Freud ou feminino?

José Lessa Filho
NAEPP Goiás

Quem quer ser um psicanalista?


Quem quer ser psicanalista?
            Está frase: quem quer ser, vem da famosa pergunta que ouvimos quando criança, o que você vai ser quando crescer?Dificilmente uma criança dirá: quero ser psicanalista. Mas quando chegamos a vida adulta, tornamos alguma coisa, e dentro desse torna se algo, uns decidem ocupar a função do psicanalista.
             Que loucura! Ser psicanalista é ser louco.
              Só que loucura maior e quando aqueles que ocupam tal função, ainda são crianças. Sonham em salvar alguém, quando não a mãe o pai.
             Quero mencionar uma critica a essas crianças-adultas que se dizem analista. Serge André no livro Impostura perversa diz: (Que vem a ser o psicanalista, já que não é quem se suponha que fosse não é apenas o sujeito-que-supostamente-sabe o sentido, se não aquele que só se presta alimentar a chama dessa crença ou dessa suposição a fim de melhor fazê-la chegar a seu ponto original de não-senso? Descobrir para que serve o psicanalista,em cada caso singular,torna-se, assim, objetivo da experiência analítica.O analista é então deslocado de sua função de intérprete para a de causa,de objeto-causa da experiência,que ele mais suscita do que explica.Nesse ponto decisivo, é o desejo do analista, mais do que seu saber,que constitui o motor e a garantia de sua prática.)
           É preciso se desautorizar da cultura e do senso-mundo e adentrar no singular de cada um, se fazendo do suposto-saber para mostrar que quem “real” sabe é o paciente, dizendo a ele goze, que analise acontece.É neste mecanismo que existe um analisando e um analista e um amor.Transferência.
            Ser analista é amar o nada, o nada sei.Portanto somente assim pode existir um saber, talvez o saber do sintoma.
             Ser psicanalista é uma das mais belas das perversões,não perversidade.

José Lessa Filho.

domingo, 21 de agosto de 2011

Insensato Coração, Psicanálise e a morte do Pai




Desde o início da novela Insensato Coração não deixo de comentar as questões importantes abordadas sobre a família na contemporaneidade. Mas o que nesta novela nos leva a pensar sobre estas questões?

Nesta novela o tema central foi uma família de classe média alta com seus conflitos comuns a cada família. Mas a diferença é que nesta a ênfase foi colocada muito mais nas vicissitudes das relações entre pai e filho do que em qualquer outro conflito. Na figura de Pedro e Léo toda a narrativa se movimenta. Pedro, um típico filho de Édipo honrava Pai e Mãe e seu conflito era justamente de conseguir ultrapassar seus limites da castração e resolver suas situações pessoais, amorosas e profissionais, questões estruturais neuróticas. O Pai e sua Lei devem ser honrados mesmo que o preço seja a própria felicidade...o gozo em não gozar....



Já Léo não conseguia entender tamanha ingenuidade...honrar Pai e Mãe, não para ele somente o Amor de uma Mãe, ela era a origem de sua certeza de que a Lei é só uma questão de interpretação e que na verdade o Gozo deveria prevalecer, em detrimento da estagnação da castração...Numa interessante cena final entre Pai e Filho, Raul diz para Léo “você nunca conseguiu aceitar o meu amor” traduzindo para o perverso o Pai não é ...e assim não se constitui a metáfora Paterna e a Lei não se instala.



Nesta relação fraterna de Pedro e Léo todos os outros personagens dançavam sua coreografia e dentre todos eles gostaria de destacar Norma que de simples enfermeira se tornou a questão dos últimos capítulos a saber quem matou Norma? A norma que Norma representava na verdade estava morta desde o início da novela... na representação da Lei do Pai, este estava morto e assim toda a noção definida de norma também padece...mas a personagem de Norma também merece nossa atenção por ser emblemática a passagem de simples enfermeira vítima de todos para poderosa viúva de milionário....ela foi de coitadinha à malvadinha, alguns até diziam perversa....Mas que nada o que Norma desejava era a” norma”fálica, a norma da família normal (pai, mãe, filhinhos, cachorrinho e etc) e assim ela ensaiou mas não conseguiu ser perversa e assim padeceu em sua neurose como Édipo. O sonho do neurótico é poder driblar a Lei...ser perverso o idílico paraíso para o neurótico...



Que país é esse celebra o refrão da música do Legião Urbana mas na verdade que família é essa?

Novas formas de família, novas formas de se estabelecer a função paterna, novos tempos?

O pai está morto ou somente são novos rumos de uma nova forma de estabelecer estas relações familiares?

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Retratos do Imaginário


Retratos imaginários do Histérico
17 de agosto de 2011.

Ao escutar os pacientes algumas imagens se impõem ao clínico, são imagens que traduzem de maneira figurada os elementos principais da teoria psicanalítica e que o praticante pode eventualmente reconhecer no curso de seu trabalho.O psicanalista se serviria destas imagens para efetuar a metamorfose do abstrato para o perceptível e propor sua interpretação. Assim em vez de se perguntar como intervir? Se interrogasse Que devo fantasiar?

Que retratos imaginários se esboçam na cabeça do analista na escuta de seu paciente histérico ou em face da histericização transferencial?

P. 77 homem histérico e P 78 a mulher.

Ao escutar nossos pacientes histéricos, devemos nos lembrar que este sofre por não saber quem é, por não conseguir deter, nem que seja por um instante, o insustentável desfile das imagens que o povoam, e submetido às quais ele não consegue evitar oferecer-se aos outros.

Somos nós, os psicanalistas que no silêncio da escutam, imaginamos mentalmente, sob a forma de uma cena, a origem do sofrimento experimentado pelo neurótico. À maneira de um filtro teórico situado entre o ouvido e a boca do psicanalista, entre o que ele escuta e o que diz, o cenário da castração se revela, assim um instrumento mental notável no trabalho do clínico. Assim devemos formular duas observações importantes:
1)      a cena imaginária que nos representamos mentalmente enquanto o analisando fala conosco nunca reproduz, tal e qual, a épura da fantasia de castração estabelecida pela teoria mas uma de suas variações: a específica de um momento exato da sessão.
2)      trata-se de imagens que não são queridas pelo psicanalista, mas que a ele se impõem espontaneamente durante sua escuta ativa.

Assim quando o analista rompe o silêncio de sua escuta e intervém, sua intervenção deve ser considerada como uma colocação em palavras da cena fantasística que se desenrolava nele mentalmente e que sob forma de imagens exprimia a origem inconsciente do sofrimento vivido por seu paciente. Como seqüência temos p. 80 e 81


O Psicanalista olha aquilo que escuta
Às diversas variedades da ação psicanalítica são o silêncio, as intervenções explicativas e a interpretação, devemos agora acrescentar a quarta que é a escuta visual, esta ligada ao um estado de visão transitório e fugaz, vivido pelo psicanalista. A escuta fica tão polarizada no dizer do paciente que o analista não apenas esquece seu eu, como também olha aquilo que escuta, aqui houve uma identificação singular entre o próprio analista e a materialidade sonora a palavras pronunciadas pelo analisando. É como se a pessoa do analista se deslocasse à maneira de um objeto erógeno, por três zonas do corpo: o ouvido, a boca e os olhos. O seguinte esquema: P 81

O tratamento e seu término
A análise reproduz a doença de que deve tratar, por isso ela constitui,pura e simplesmente, uma histeria que o analisando e o analista têm que resolver juntos na transferência. Num momento avançado da análise o analisando deve se deparar com uma estado subjetivo e inconsciente de aceitar ou recusar a atravessar a prova da angústia de castração. Este estado é o apogeu e não o fim da análise. Numa palavra, a maneira como o neurótico termina sua análise decide sobre sua cura.

Devemos sublinhar que numa análise o analisando se separa duas vezes: primeiro, dele mesmo, depois do analista. O primeiro registro é temporal e se desenrola em 3 fases:
1)      fase inicial em que a histeria de transferência se instaura progressivamente,
2)      fase mediana caracterizada por um estado de crise aguda ao analisando e que marca o ponto de exacerbação paroxística da neurose transferencial, a prova da angústia
3)      fase final onde se elaboram o luto e o processo de auto-separação resultantes da proa da angústia. Existe aqui uma concordância entre o analista e ao analisando.

O segundo registro é o processo psíquico do tratamento, se desenrola num tempo ilimitado que se inicia na idéia de consultar um psicanalista até um além desconhecido...P 88

Numa situação de análise a ação do psicanalista deve conduzir o paciente ao estado de angústia, reativar a angústia que antes havia se convertido nos sintomas, o paciente deve atravessar a angústia. Assim o analista é o semblant: o Outro castrado, o Outro da Lei e o Outro do desejo.
O primeiro é o horror do buraco da castração, este não representa não apenas uma ameaça que assusta mas também um apelo que seduz e tranqüiliza, a fantasia de castração é angustiante mas protege a criança do perigo de experimentar um gozo sem limites.
O segundo é uma das versões paternas de proibir e punir severamente o desejo do incesto, esta está na origem da neurose obsessiva. “Tenho medo da Lei, mas não deixe de lembrá-la a mim ininterruptamente: peço-lhe que me dê ordens me proíba e se preciso for me castigue.”
O terceiro é também uma figura paterna a de um pai afeito ao gozo e que goza com todas as mulheres, um pai capaz de abusar de mim, de me violentar e gozar com  sofrimento: a mesma contradição teme mas se sente atraído...”Tenho muito medo de você, mas tome-me em seus braços e faça de mim a presa de seu desejo perverso.” Aqui a perversão é evocada, mas não é estrutural o neurótico sonha em sê-lo.

O desejo do neurótico é um desejo de angústia
A maior dificuldade do analista consiste, simultaneamente, em criar um estado de perigo na análise, suscitar a eclosão de uma nova angústia no analisando, e lograr que ele renuncie à angústia com que vinha convivendo desde sempre. Mas de que modo?
A solução histérica para o problema da angústia é AMAR a angústia, apegar-se a ela de corpo e alma, até se tornar coisa; e isso apesar do sofrimento dos sintomas. Para que ele se livre radicalmente de sua angústia, tem que encontrar, primeiro, uma nova angústia produzida pela análise, e então atravessá-la para poder deixá-la.

LER nota de rodapé P. 92.



A Histeria


10 de Agosto de 2011
Comentários sobre o livro A Histeria: Teoria e Clínica Psicanalítica de J. D. Nasio.

O útero na Histeria: uma fantasia fundamental
Antes de iniciarmos propriamente o tema de nosso encontro de hoje devemos recordar que a fantasia de castração na base de toda neurose é também a fantasia que todo ser falante, neurótico ou não, não para de superar e superar. No que se refere ao neurótico, esta fantasia domina sua vida pois esta vida é inteiramente organizada em função da angústia de castração, núcleo da fantasia.

Existe na Histeria uma cena fundamental, o seu conteúdo poderia ser resumido pela seguinte cena, dois corpos entrelaçados, um homem e uma mulher concebem um filho sem penetração genital. O histérico seria neste tanto o ator desse sonho como o lugar que abrigaria os dois corpos místicos., assim ele faz de si o lugar protetor de sua união sublime. A fantasia fundamental aqui é ligada a identificação primordial de encarnar o útero, órgão matricial oco que contém o encontro real onde se gera a vida, o útero assume duas condições em suas fantasias:
1º )  órgão ameaçado de mutilação quando na penetração sexual (fantasia recorrente de horror ao abuso ou ao estupro em muitas pacientes histéricas)/Fantasia de castração.
  receptáculo ideal do homem e da mulher desprovidos de sexo/Fantasia fundamental.

Assim existem dois tipos de útero-falo que o histérico se identifica: órgão interno, a ser preservado e nunca exposto ou é o órgão receptáculo. Deste modo entende-se o porquê da aproximação do histérico da bissexualidade como muito já foi dito sobre o caso Dora. De fato na histeria não existe uma oposição dos sexos, existe um fácil deslizamento no papel masculino para o papel feminino.Mais acertado seria de os chamar de hors-sexuels, fora do sexo. Isto porque o histérico ignora se é homem ou mulher, a histeria consiste uma impossibilidade de assumir psiquicamente um sexo definido, histeria como uma incerteza sexual nem homem, nem mulher.

A diferença entre as fantasias histéricas, obsessiva e fóbica.
Existe uma fantasia originária de castração em todas as neuroses.

1º) a cena da fantasia obsessiva, fantasia inconsciente e submetida à pressão do recalcamento: p. 69
2º ) aqui é um ouço mais complicado pois a angústia de castração suscitada pelo desejo da criança é essencialmente em relação ao pai e não mais exclusivamente em relação à mãe, como nas neuroses histérica e obsessiva. É o pai que se acha no centro da fobia, mesmo que o desejo incestuoso pela mãe continue a ser o ponto de partida. O pai se apresenta como objeto primeiro em desejo de morte, parricida e depois como objeto de um desejo de amor:. A angústia de castração despertada pelo amor ao pai é rejeitada e projetada no mundo externo, esta angústia fixa-se num objeto transformado então em objeto ameaçador do qual o fóbico terá que fugir para evitar de ser invadido por um medo consciente, mais tolerável do que o é a angústia inconsciente de castração: p. 70.

Assim é como se a criança vivesse as voltas de ser sufocado pelo pai, a zona erógena em torno da qual se organiza a fobia não se limita a uma zona localizada mas estende-se à totalidade dos tecidos musculares

Na neurose, não importando sua expressão, o sofrimento vivido pelo sujeito é a expressão dolorosa do combate do eu para projetar para fora a angústia de castração contida em sua fantasia.

Na F. O=a ameaça entra pelo ouvido, angústia  resultante submetida ao recalque se desloca para o pensamento e se fixa numa idéia anódina.
Na F. F=a ameaça entra pelos orifícios de todo o corpo, a angústia resultante submetida ao recalque acaba sendo projetada, instalada e localizada no mundo externo.
Na F. H=a ameaça entra pelos olhos, a angústia resultante submetida ao recalque se converte em sofrimento da vida sexual, numa erotização geral do corpo, paradoxalmente acompanhada por uma inibição localizada no nível da zona genital.

Resumindo: Gozar constitui, para o histérico, um limite derradeiro e perigoso que, uma vez transposto, fá-lo-ia mergulhar inevitavelmente na loucura, explodir e se dissolver no nada. Assim ele ser recusa a gozar, para se manter afastado do gozo e persistir numa recusa, o histérico inventa inconscientemente uma fantasia protetora: a fantasia angustiante de castração e cria a ameaça fictícia de perder sua força fálica. Esta medida protetiva o salva mas o perturba em sua maneira de perceber os seres a que ama e odeia, como um lente deformadora, a fantasia de castração mergulha o neurótico num mundo em que a força e a fraqueza decidem em termos exclusivos sobre o amor e o ódio.
“Amarei e odiarei meu parceiro conforme a percepção de sua força ou fraqueza fálica.”
Dominado e Dominador num mundo onde o único verdadeiro domínio é o não gozo.



terça-feira, 2 de agosto de 2011

Anorexia e Histeria


Os estudos pós-freudianos sobre a histeria apontam na dialética do desejo e à vista do jogo fálico, que se pode considerar como pontos de ancoramento das organizações histéricas. Segundo DOR (1991) convém apontar os pontos de cristalização em que esta lógica fálica corresponde um modo específico e preponderante que se fixa em torno da problemática do ter e do seu correlato não ter. A passagem do ser ao ter é determinada principalmente pela intrusão paterna. O pai (imaginário e simbólico) aí se manifesta intervindo especificamente como pai privador e frustrador do desejo da criança. É efetivamente porque o pai é reconhecido pela mãe como aquele que lhe faz a lei que o desejo da mãe se revela à criança como um desejo inscrito na dimensão do ter.

O jogo histérico é por excelência a questão desse passo a dar na assunção da conquista do falo. DOR (1991) observa que em Lacan é preciso que o pai a um dado momento dê a prova dessa atribuição. Ora, precisamente, toda a economia desejante do histérico se esgota sintomaticamente na colocação à prova desse dar a prova.

Aceitar que o pai seja o único depositário legal do falo é engajar seu desejo para com ele à maneira de não tê-lo. Por outro lado, contestar esse falo enquanto pertencente ao pai senão por ter dele desapropriado a mãe é abrir a possibilidade de uma reivindicação permanente concernente o fato de a mãe poder também tê-lo, ou mesmo ter ela o direito a ele. Nessa reivindicação do ter identifica-se alguns dos traços mais notáveis da histeria e igualmente o que a aproxima do sintoma anoréxico. Na anorexia o corpo toma dimensões fálicas onde o controle do mesmo subverteria a ordem do ser e do ter numa eterna militância do ter. O corpo serve então de instrumento de expressão de controle (ou ilusão deste) do seu desejo até mesmo nos limites da morte. Não tendo medo da morte a anoréxica se faz criadora do seu fim, mas também da sua origem. A dialética da finitude e do ser infinito é um dos ecos d atualidade. O corpo como um campo de batalha é um dos mandamentos de nosso tempo. Sob esse aspecto poderíamos pensar no que o discurso contemporâneo oferece para esse corpo e nas fraturas subjetivantes e que ele vê sendo lançado. A característica do desejo histérico é a insatisfação, sendo esta a única estrutura que corresponde a um discurso. É o sujeito dividido, o próprio inconsciente em marcha. O histérico é o escravo, sempre à procura de um Senhor. Precisa de um mestre. Excita o desejo do outro, mas não se aceita como objeto desse desejo.

Segundo NASIO (1991) a histeria não é uma doença que afeta um indivíduo, mas o estado doentio de uma relação humana que assujeita uma pessoa a outra. Seria antes de tudo, o nome que damos ao laço e aos nós que o neurótico ata nas suas relações com o outro a partir de suas fantasias. O histérico então é aquele que, sem ter conhecimento, impõe na relação afetiva com o outro a lógica doentia de sua fantasia inconsciente. Fantasia em que ele desempenha o papel de uma vítima infeliz e constantemente insatisfeita, estado este que domina toda sua vida. Mas qual é a razão disto?

“A razão é clara: o histérico é fundamentalmente um ser de medo que, para atenuar sua angústia, não encontrou outro recurso senão manter incessantemente, em suas fantasias e em sua vida, o doloroso estado de insatisfação. Enquanto eu estiver insatisfeito, diria ele, ficarei protegido do perigo que me espreita.(...), o perigo de viver a satisfação de um gozo máximo. Um gozo tal, que, se o vivesse, ele o faria enlouquecer, dissolver-se ou desaparecer.” (Nasio, 1991, p. 15)
A insatisfação tem que prevalecer e assim a anoréxica se resguarda também do genital afirmando a sua batalha cotidiana com o alimento numa luta de amor e ódio onde o corpo magro é o símbolo central de seus desejos e conquistas.
Segundo SCHEVACH (1999), a anorexia é definida como uma patologia dos laços amorosos com o outro e consigo mesma; seria, fazendo um jogo de palavras, uma amorexia. É importante assinalar que, quando a anoréxica se entrega à restrição alimentar, por mais séria que seja, isso não a incomoda. Ela se posiciona em sintonia com esse jejum alimentar, tornando-o problema para o outro. Seu sintoma é a gordura (ou as curvas) que elas vêem em uma determinada área. É um excesso irredutível localizado no seu corpo. É um transtorno insuportável causado pela distorção de sua imagem corporal. Observamos, em seguida, na anorexia, o borramento, o apagamento das formas do corpo feminino, a amenorréia, e certo desligamento do laço social.
A psicanálise verifica que esses transtornos alimentares não ocorrem apenas na aparência e em relação ao corpo. No fundo, são sintomas tributários das vicissitudes do amor, do desejo e do gozo. O desejo é, por excelência, da ordem da insatisfação. Só se deseja aquilo que está em falta. A anoréxica leva ao extremo a preservação do desejo pela sua insatisfação
A anorexia é uma das traduções da impossibilidade, ou da tentativa fracassada, do sujeito atual se inserir virtualmente na cena do espetáculo.  ASSOUN (1993), em Freud e a Mulher, vê a anorexia como uma síndrome histérica que expressa enfaticamente algo de característico da feminilidade. O emagrecimento do corpo se origina no curto circuito da sexualidade com a função nutricional do alimento, daí a ética da ascética do corpo.
A anoréxica apresenta um espetáculo que responde à perplexidade de Freud, já que, em sua pretensão fantasística, ela é aquela que, por excelência, sabe o que quer. Porém, o que ela ignora é que esse querer determinado sustenta uma negação do desejo. Deste modo essa estrutura neurótica traz um traço de perversão na marca mesma de uma Verleugnung (renegação). "O querer garante a presunção do saber absoluto, mas esse corpo subjugado constitui uma barreira para algo que não quer se expressar, que é o desejo pelo outro" (ASSOUN, 1993, p. 118). Renegação da sedução: desencanto e ausência de sexualidade.
Na adolescência, momento em que a jovem se volta para o pai com a intenção de alcançar sua feminilidade, complementando o corte com o vínculo materno, é especialmente um certo olhar que ela requer da instância paterna. É o momento em que este olhar não pode faltar. Trata-se de uma demanda muda, aquela que envolve uma certa discrição, num ponto de hesitação simbólica, entre a pulsão oral (voz) e a pulsão escópica (olhar). Na dimensão da anorexia este pai é faltoso e o que ela busca, este olhar não o encontra, sendo assim ela parte sem alcançar sua feminilidade. Assim, dois objetos pulsionais têm seus destinos relacionados entre si, nesta metamorfose que vai elaborar a abertura para a feminilidade: momento de obter o reconhecimento, de consolidar a identificação, momento de ser vista.
A adolescente é demandante de olhar. A ausência de olhar do pai, o olhar vazio abre a dialética: comer/ser comido, olhar/ser olhado. O ódio pela mãe fornece a energia a esta demanda totalitária. Medo de ser comida (devorada) pelo olhar da mãe e "vontade" de ser comida (com os olhos) pelo pai. Com relação à figura materna, podemos dizer que diante do temor de ser devorada pelo olhar desse outro claramente determinado, sua mãe, a saída que a anoréxica encontra é tentar, ela própria, devorar o olhar de sua mãe, colocando-se a serviço de uma "fantasmática de devoração". Porém, apesar de sua tenacidade, de seu superinvestimento, sustentando uma fantasia de onipotência, que até pode vir a se expressar narcísicamente através de ideais éticos e estéticos, de perfeição física e moral, o resultado dessa estratégia será sempre o fracasso.

Para romper o laço com a mãe, aparece a demanda frente à relação com a figura paterna - é preciso eleger um pai ou fazer-se eleger por ele. E o que ela espera do pai? Muito: que ele lhe prometa que a amará, que lhe "fará" um filho e que ela será uma mulher (e que sua mãe não será obstáculo a nenhum dos 3 desejos). Olhar, uma estranha e complexa condição de existência.

Mas como se reconhecer, se em sua tenacidade a anoréxica é tomada pela cegueira? Aos seus olhos, o sexo do Outro é apenas uma falha, revelada ou por uma potência excessiva ou por uma fraqueza demasiada. Freud afirmou que o olho cego da histérica não via na consciência, mas via no inconsciente o encanto erótico do outro amado. Trata-se de fazer-se ver pelo pai, de buscar um sinal do que significa para ele que ela esteja em vias de tornar-se uma mulher. A questão urgente passa a ser: com que olho ele me vê?.

Podemos afirmar que a anoréxica se vê colocada frente a frente sua cegueira ao desejo, por aquele que não é nem viril nem feminino, mas falho ou onipotente:. (Nasio, 1991, p 142).

Assim, o que comove o histérico não é o encanto do sexual mas o encanto que emana da força ou, ao contrário, na fragilidade do parceiro. A lógica da fantasia de castração determina que o eu-olho-erógeno nãp apenas percebe a falha do Outro, mas se identifica com o objeto falo de que o Outro foi privado, o eu-falo percebe visivelmente a falta de falo no Outro. “(...) concluiremos dizendo que o próprio eu é um sexo à procura da falha do Outro-seja essa falha uma impotência ou um excesso de potência.” (Nasiop. 142)

No Seminário 11 vamos encontrar a proposta de um laço entre o olhar, a fascinação e o sacrifício do desejo puro, quando LACAN enfatiza que o que se solicita é o próprio olhar, e não a visão. Há que se manter a distância entre esse ponto de onde o sujeito se vê passível de ser amado e um outro, aquele em que "se vê causado como falta pelo objeto a e onde o a vem arrolhar a hiância constituída pela divisão inaugural do sujeito". Essa hiância nunca é atravessada pelo objeto a, e é assim que lidamos com sua função com valor de olhar. Esse olhar é justamente o que procuram as anoréxicas que desfilam seu corpo magro e se entregam na procura do olhar desejoso de um pai. Temos aqui, mais uma vez, uma interessante articulação entre a pulsão escópica e a oral, até mesmo nas próprias palavras utilizadas por Lacan: "esse "a" se apresenta, justamente, no campo da mensagem da função narcísica do desejo, como objeto indeglutível, se assim podemos dizer, que resta atravessado na garganta do significante. É nesse ponto de falta que o sujeito tem de se reconhecer. 
Essa questão se faz explícita, se concretiza no próprio corpo da anoréxica, uma vez que atingir ao corpo ideal corresponderia a um padrão que, ao mesmo tempo, a identifica e a faz perder sua identidade subjetiva. Um corpo uni-forme, que devora a diferença, que não sustenta a bissexualidade psíquica constitutiva do sujeito. A cega determinação em negar a questão da falta se articula com a construção da imagem de um corpo ideal que lhe é particularmente conveniente. Promove ainda a construção de uma nova identidade através de um "sou anoréxica", ou ainda, posiciona-se pela palavra dos familiares: "Tenho uma filha anoréxica". Solução de posicionamento subjetivo, de localização do gozo. Em outras palavras, nomeia-se através do padecimento.

Igualmente no Seminário 11, Lacan refere-se à anorexia mental ao descrever a operação de separação, a operação constitutiva do sujeito do inconsciente, em que o sujeito diante do Outro responde à falta com a falta. É o momento de fazer-se desaparecer frente ao enigma do desejo do Outro:

“A fantasia de sua própria morte, de seu desaparecimento, é o primeiro objeto que o sujeito tem a pôr e jogo nessa dialética, e com efeito o faz-sabemos disto por mil fatos, ainda que fosse pela anorexia mental.” (Lacan, 1979, p. 203).

O sujeito é ser em nada (ser na morte) sob a forma do acting out ou da passagem ao ato, e o que irrompe após o ato é um encontro falhado, que báscula essencialmente fora de cena. Responde tragicamente à ignorância do Outro acerca do seu ser. HEKIER (1996) citando Lacan em A Direção da Cura, ao relacionar a posição da anoréxica com o desejo nos leva a deduzir que, ao recusar o alimento, ela sustenta uma verdade. A anorexia seria assim a expressão de um sintoma do desejo, de um desejo particular, um desejo de nada.

Por não conseguir situar o outro na sua liberdade de sujeito desejante, a anoréxica tenta uma frágil sustentação ignorando o outro como tal. Ela se isola do desejo dos homens e inscreve em seu corpo a marca de sua estranheza. Apaga de seu corpo todo sinal exterior de feminilidade, disfarçando as saliências de seu sexo, ou então, oferecendo, através de sua aparência trágica, sua versão grotesca.

A anorexia nos coloca diante do ponto culminante atingido pelo olhar no cenário do mundo, até além desse cenário, no ponto em que o sujeito é reduzido a uma pura e simples castração, ou a mero valor de mercado, numa sociedade inteiramente voltada para o consumo. Segundo NASIO (1991), na análise, o sujeito deverá ganhar em desejo o que ele perde em gozo. Dominado pelo componente narcísico que, como indicou Freud, pode dispensar um objetivo sexual, a anoréxica não alcança um corpo de prazer. O prazer fracassa em cumprir sua função de limite ao gozo.

A clínica da contemporaneidade parece apontar para uma ausência de corpo, no sentido até de uma descarga maciça das forças pulsionais. A análise vai permitir o remanejamento através do Outro e o retorno da força pulsional sobre o próprio sujeito, isto é, sua libidinização, para que possa nomear seus objetos de desejo, em lugar de sofrer de tanto gozo. Dito de outro modo, a análise buscará a construção da referida corporalidade do eu através da transformação das forças pulsionais a partir da inserção do sujeito na cadeia significante.

Marcelo HEKIER (1996) lembra que etimologicamente, "adicto" significa escravo, mas também pode significar não-dito, e é a partir dessa leitura que a Psicanálise vai poder escutar o corpo da anoréxica. Falar do corporal significa, fundamentalmente, apontar, por um lado, para as descrições corporais próprias de alguns fenômenos pulsionais, e, por outro, para o caráter unitário do psíquico e do somático.

Finalizo com HEKIER (1996), enfatizando que, quanto às psicopatologias da contemporaneidade, o psicanalista, ao ser convocado, não deve fazer desses posicionamentos subjetivos, uma categoria clínica, mas sim, escutá-los como uma demanda de questionamento constante da teoria, a fim de podermos fazer de nossa prática um movimento sempre reflexivo e permanentemente aberto. Existe uma mensagem no adoecer da anoréxica. Sua inanição tem um significado, um conteúdo. Isto que não pode ser falado é o que a clínica psicanalítica vai investigar. O que leva uma mulher a arriscar sua vida na busca de um ideal de beleza é o que é questionado na tentativa de compreender o que está envolvido neste jogo que mistura a exigência da sociedade e desejos, aparecendo inscritos no corpo, como uma metáfora.